sexta-feira, janeiro 05, 2007

o mar recomeça sempre



aqui fica mais uma transumância juntamente com uma pergunta no ar, o mar recomeça sempre?

"O mar recomeça sempre

Cheguei a esta cidade em 1979. Era ainda uma vila muitíssimo amarela, com casas brancas de cal, outras, brancas de um sonho de cal apenas sonhada. As crianças, reparei eu na altura, tinham aquele ar de quem fica sereno e assustado a ouvir a música do Amola-Tesouras, sem saber bem o que é e de onde vem. Tinham todas olhos castanhos, claros, e faziam bolhas de saliva com a boca. Os rapazes vestiam uma espécie de jardineiras de fazenda com um comboio estampado na parte da frente, junto ao peito, e umas camisolas de lã vermelha. As raparigas, de olhos mais claros ainda, vestiam todas saias de um azul muito frio, e camisolas de malha verde clarinha, com desenhos de gatos.

Isto é o que eu me lembro, ou o que a memória me deixa dizer, ou é apenas uma interpretação fantasiada pelo meu olhar etnográfico da altura.

Devo acrescentar também que nessa altura ainda não havia completado trinta anos, usava bigode e nunca tinha visto um computador, um micro-ondas e muito menos uma agulha de dois bicos. Creio mesmo que ninguém, nessa altura, tenha ouvido falar de tais coisas em Almeirim.
Não tinha emprego e vivia do que achava no chão. Nesse tempo eu tinha muita sorte e tirava duas horas por dia para encontrar notas de cem escudos no passeio e moedas de vinte e cinco escudos, que brilhavam ao sol e me ofuscavam mais a mim que aos pássaros. As notas de cem escudos eram as mais fáceis de perder porque tinham o Fernando Pessoa gravado.

Também encontrava botões e outras coisas valiosas e quase nunca precisava de respigar. Como não tinha ainda trinta anos não era preciso já ter vencido na vida.

Mais tarde, lembro-me, cheguei mesmo a fazer trinta anos e foi nessa altura que percebi que isso de ter que chegar aos trinta já despachado de vencer na vida era uma enorme mentira. Descubro agora, na imaturidade dos cinquenta, que há muito mais mentiras na boca que no tempo de vida das pessoas.

Mas nada disso me preocupa. Nem mesmo quando vou de carro, mãos no volante, janela aberta para a imensidão das vinhas e para a verticalidade pontual dos choupos , nem mesmo na velocidade constante do automóvel, me incomoda essa nítida impressão de que o tempo, dono de si mesmo, me pode a qualquer momento ultrapassar, engolir. O tempo é uma grande mentira, mas eu acredito nele. Só não há é que ter pressa.

Aprendi a não ter pressa com a Cristina. Primeiro achava que era impossível manter a calma quando acontecia estarmos os dois sozinhos na sala dos pais dela, mas depois, com algum treino e muita paciência (não sei se mais minha que dela), lá conseguia desfrutar o tempo que levava a minha mão a subir e a descer-lhe o corpo. E que corpo!

Outra coisa que aprendi com o tempo foi que nem os bois podem ter escamas, nem os cavalos asas, nem pode o ferro florir em Maio. Aprendi, ainda que com algum custo, que dantes, embora as fotografias fossem a preto e branco, o mundo era a cores, como agora. Eu ia jurar que o via como nas fotografias antigas, ou como naqueles filmes célebres: um mundo cinematograficamente belo, mas sonoro, estrondosamente sonoro e músico.

Quando cheguei a esta cidade, estranhei a aparência das coisas. Eu estava habituado, no sítio onde antes morava, a estar cercado de mar e de vento. Nesse sítio havia pouco mais que mar, vento e sol. Levantava-me de manhã, bebia um pouco de mar, em jejum, depois a meio da manhã comia um bocado de vento, que ao engolir se transformava numa brisa dentro de mim, a palpitar-me debaixo do sangue. O resto do dia olhava para o sol (branco) e por vezes, nos dias mais inspirados, sentava-me na praia a escrever sempre o mesmo verso: “o mar recomeça sempre”.

Hoje, na imaturidade suprema dos cinquenta, não me resigno com a secura das coisas que alguns outros inventam. Falta-me o mar do outro lado da janela e um gato sentado ao pé do que escrevo. Vivo nesta terra plana, de gente plana, alheia ao labor das ondas e ao embalar cíclico das marés. Vou encontrando aqui um falso e longínquo reconforto na certeza de que há perto um rio que navega dentro de si mesmo para um atlântico azul, que é um bocado de mim.

Nunca me seduziu o ofício de encostar búzios ao ouvido e ver nisso hipóteses de recomeço; quanto ao céu, nunca poderá ser o mar, embora no horizonte se confundam e se entrelacem.
Estar atento às estrelas sempre influiu na saúde da humanidade, amar também, e tactear pele alheia, e olhar para dentro da cor dos olhos de alguém, e respirar fundo. Tudo isso pode valer uma vida.

Falo da doçura estranha e da vertigem doce da vida, que começa e que recomeça sempre no inicio infinito das coisas.

Algumas crianças ainda têm o jeito de fazer bolhas de saliva com a boca. Algumas fazem-nas tão grandes que chegam mesmo a servir-se delas para voar, esquecendo por momentos as leis da física e o contacto com o chão que a gravidade do mundo impõe.

Cheguei a esta cidade, moro aqui, faço poemas mareados de sonho, sorrio às pessoas na rua, toco-lhes, escrevo cartas a amigos distantes, leio livros marítimos, vou salvando os dias, mas o mais importante de tudo é o barco que estou a construir no quintal, entre as laranjeiras."

3 comentários:

expatriada disse...

parece-me que promete mas ainda nao li... estou c pc tempo agora mas prometo que dedicarei um tempinho para ao mar...

ate ja...

Lis disse...

Tão bonito mas tão bonito que me perdi...E a foto...Olhem, parabéns!

intruso disse...

... depois de ler isto...
não consigo dizer mesmo nada...
apenas que gostei, que me tocou.

...