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segunda-feira, dezembro 15, 2008

Todo o mal do mundo vem de nos importarmos, uns com os outros...



"Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu – não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos, uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa – existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.)

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?
"

ontem à tarde - alberto caeiro



homens das cidades - wordsong

quinta-feira, setembro 04, 2008

contra a manhã burra...


sou do tempo em que esta cara era carimbada em quase tudo o que não mexia... com orgulho, agora é capa de livro...

contra a manhã burra de miguel manso... a não perder

«(...) E é de “risco”, precisamente, que estes poemas nos falam: antes de mais, o risco de quase o não serem, sobretudo para os cultores da “bela poesia”; risco, ainda, de quem recusa ancorar-se em ocos eflúvios líricos ou em hábeis reciclagens do já-dito, demonstrando antes uma notável propensão para esbater as fronteiras verbais entre o insólito e o corriqueiro. Não surpreenderá, claro, que o resultado de tal funambulismo possa parecer desigual. Em todo o caso, e tratando-se de um primeiro livro, é de sublinhar, além do ritmo seguro e do logrado efeito surpresa, uma plasticidade crua e contundente: “o leitor afastará o fumo/ destes versos e atentará/ apenas na morena/ de gorro vermelho/ junto à janela”. Se ainda é cedo para saber “qual o quadro concreto da tristeza”, não é menos verdade que “tudo isso faz mais sentido agora/ que vivemos num tempo de simulacros/ e rarefacção” e que há muito não se assistia, por cá, a uma estreia tão poética e vigorosa.»

Manuel de Freitas (Expresso)

terça-feira, julho 10, 2007

portugal é um país de poetas ricos...

portraits of sand bathers - yuji tsukada


é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.

seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.

somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.

só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.

portugal é um país de poetas ricos.
a poesia dá dinheiro a portugal.


Nuno Moura, in «nova asmática portuguesa», Mariposa Azual, Agosto de 1998


para quem conhece, sabe que isto faz muito sentido à voz dos Ventilan®