sexta-feira, novembro 26, 2004

TEMPO

Nos ultimos tempos desenvolvi uma estranha relação com o tempo.

O tempo transformou-se num camaleão que se esconde de entre o mundo e as ideias. Os acontecimentos são vividos a uma velocidade estonteante para depois se transformarem a recordações antigas. O futuro incerto.

As semanas dias, os dias horas para serem transformados em meses e anos.
Os minutos atropelam-se uns aos outros e eu a correr lado a lado.

Tenho recordações de semanas recentes que são sentidas como semanas antigas ou mesmo ausentes.

Passa tudo tão depressa e é tudo tão longe.

Eu sei que nao se controla nada, mas de repente nao se tem indicações de nada.

Acordo, espanto-me, de um dia para outro já tenho 25 anos, já fiz o quê? já fiz quase tudo e ainda está quase tudo por fazer. As recordações são meros cobertores que aquecem nos dias de frio á distancia do que fica quando vejo um documentário na televisão.

As memórias deixam de ser minhas, são vistas e nao vividas, chego a ter recordações de coisas que me aconteceram, que não sao mais que histórias ou estórias.

Entretanto não sei bem o que mudou , algum sintoma de algo maior/pior ca dentro, a fome de viver a ser saciada, os dias que são rotinas a marcar passo, não sei mesmo.

Se calhar esta coisa de querer relegar a razão para um canto estreito da cabeça e deixar todo o corpo entregue as paixões leva a que as coisas sejam sentidas e não vividas, e os sentimentos não deixam muita informação escrita na memória. Deixa de haver calculismo para passar a haver disponibilidade, deixa de haver compromisso para passar a haver desprendimento, deixa de haver futuro para haver momento, deixa de se combinar para simplesmente se estar. E nada disto é mau

O barco navega ao sabor das mares e dos ventos sem querer atracar, mas para isso é preciso levar muitos mantimentos, porque a esta suposta liberdade há que equacionar as coisas práticas, a fome, o sol, a sede, o sal, o reumático, as noticias, etc. como certo dia me alertou uma amiga.

Todos os dias há encontros e desencontros, histórias de vida que passam completamente ao lado só porque os olhares não se cruzaram. E nós existimos no meio disto tudo.

Parece que me dispersei do caminho deste texto. Retomo.

O tempo é curto,
é a primeira coisa a aprender.
Para o mesquinho o tempo será mesquinho, para o heroi o tempo será heroico, para a puta o tempo é apenas mais um truque.
Se fores um cavalheiro o tempo será educado, se fores apressado o tempo voa, se tiveres calma ele espera, o tempo será submisso se fores o seu mestre, o tempo será o teu deus se fores a sua ovelha.
Somos os criadores do tempo, as vitimas do tempo e os assassinos do tempo.
O tempo é o que fores para ele.
O tempo é atemporal,
é a segunda coisa a aprender.
Nós somos o relógio.

(tradução livre de um excerto do filme "tão longe, tão perto)


Que estou então eu a ser para o tempo?

1 comentário:

Quem? disse...

Perder o tempo não é possível, é ele que manda com o colega espaço. Perder a noção do tempo empurra-nos compulsivamente ao passado ou ao futuro, onde o tempo é inatingível. Perder o tempo é perder a relação que temos com ele no presente.
"Jamal" (Faço minhas as suas palavras....já que não as consigo escrever)