quinta-feira, julho 24, 2008

mentiras que são verdades...

foto da net - castelo de s. jorge actualmente


a oficina fez uma "visita de estudo" a um pequeno grupo de colegas por causa de um projecto que está a ser posto em pé...

o chefe referiu que houve diversas restrições devido à defesa do património de coisas que não tem valor, são coisas que se diz pertencerem a outra época mas que na realidade são coisas bastante mais recentes, que na maior parte dos casos nada deve à época que copiam...

lembrei-me da história das ameias do salazar, que durante a sua ditadura encenou uma arquitectura típica e popular desta sua pequena utopia rural...uma verdadeira construção da identidade nacional... ele encomendou um inquérito à arquitectura popular portuguesa (que curiosamente não estou a encontrar em lado nenhum à venda), onde jovens arquitectos que agora têm renome, faziam campanhas de catalogação por entre aldeias e terras ermas de portugal...

resultado? não existia uma arquitectura típica portuguesa, mas antes uma grande riqueza regional com muitas formas tradicionais de construir, cada uma com as suas características... impossíveis de condensar uma só construção...

assim, inventou estilos, aplicou o português suave e criou uma imagética própria da nossa arquitectura, beirados, telha, sancas, pedra, cal, etc.
resultado? milhares de edifícios públicos iguais, escolas primarias, secundárias, correios, câmaras, etc... tudo seguia o mesmo estilo, a mesma arquitectura popular portuguesa que afinal não era assim tão popular...

semelhante fenómeno repete-se um pouco por todo o país, basta ver o exemplo do algarve com grandes aldeamentos e casas de pato bravo que vão beber à mesma imagética...


na altura, apelando ao nacionalismo e aos valores históricos da nação, foram refeitos muitos castelos e igrejas por esse portugal fora, sempre apelando à ideia do que se achava que deveria ser, agarrou-se em pedras de ruinas e inventaram-se ruinas como se fossem verdadeiras, meteram-se ameias, contrafortes, paredões e cúpolas onde nunca existiram... portas do sol em santarém, as muralhas de marvão, a sé de lisboa, o castelo de s. jorge,...


a verdade é que as reconstruções mereciam mesmo ser feitas, mas deveria mesmo ter sido feitas de acordo com estudos aprofundados do real aspecto das coisas...

hoje são património construções que não são mais do que encenações, mentiras que se tornam monumentos...

no fundo esta procura da tipologia popular das nossas construções acaba por destruir a tipologia verdadeiramente popular e histórica... aborrece todo um mundo de mentiras...

5 comentários:

Claudette Guevara disse...

Gostei muito do que escreveste.

Mas... a coerência é uma coisa chata, não é? E o mundo pula e avança sem que a maior parte se dê conta.

kiasma disse...

posso estar enganado e ter as minhas fichas baralhadas mas... Salazar, ou o Estado por ele, não encomendou nenhum inquèrito à arquitectura popular portuguesa. O inquérito, de seu verdadeiro nome Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa decorre entre 1955 e 1961 e dá origem a um belíssimo objecto fotográfico, o livro A Arquitectura Popular Portuguesa que condensa os resultados do estudo paginado com o trabalho da missão fotográfica que o acompanhou. É verdade que o trabalho foi patrocinado pelo Estado, mas foi conduzido e orientado pelo então Sindicato Nacional dos Arquitectos (que não era nem pouco mais ou menos próximo do regime) e teve as suas origens teóricas nas ideias que vinham a ser desenvolvidas por Keil do Amaral e Fernando Távora. O Estado (por certo através do Secretariado Nacional de Informação, ex- da Propaganda e da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais - os tais dos restauros) pensava poder vir a tirar algum suporte teórico que sustentasse a ideologia que tentava tenazmente impor. Mas a verdade é que o resultado do inquérito acaba por ser um sério revés nessa obsessão e vem a ter importantes consequências na prática arquitectónica dos jovens (e menos jovens) arquitectos.
Quanto ao estilo que ironicamente ficou conhecido por Português Suave, é anterior ao inquèrito e tem a sua expressão máxima nas décadas de 30 e 40 sendo ferido de morte no 1º Congresso Nacional de Arquitectura qe teve lugar em 48. Aliás no ano seguinte Keil do Amaral e um grupo de arquitectos ganham as eleições para o sindicato e são afastados compulsivamente por imposição do governo.

Quanto ao livro, às vezes aparece nos alfarrabistas de Lisboa. Tenta o do Largo da Misericórdia, ou aqueles na calçada do Combro...

indigente andrajoso disse...

tambem posso ter as fichas baralhadas, mas como dizes, o inquérito foi uma encomenda do estado e sim, nao correu como eles queriam e sim, é uma belissima obra que felizmente faz parte daqui da biblioteca.

à anos, aquando de uma efeméride sobre keil do amaral, tive oportunidade de ver uma série conferencias sobre a sua obra e tive tambem a oportunidade de ouvir em primeira mão oradores que fizeram parte do inquerito... verdadeiramente inspirador

kiasma disse...

sortudo que tens o livro... espero que seja a edição original.

indigente andrajoso disse...

:)

não sou eu que tenho... é a oficina... não é bem o mesmo mas é quase o mesmo...

e sim é a edição original :)